Coesão e Coerência Textual


                                                                                      Introdução
A coerência é responsável pelo sentido do texto. Envolve não só aspectos lógicos e semânticos, mas também cognitivos, na medida em que depende do partilhar de conhecimentos entre os interlocutores.
Um discurso é aceito como coerente quando apresenta uma configuração conceitual compatível com o conhecimento de mundo do recebedor. 

O conhecimento de mundo é importante, não menos importante é que esse conhecimento seja partilhado pelo produtor e receptor do texto. O produtor e receptor do texto devem ter conhecimento comum.


Vamos analisar o cartum abaixo?
Veja que a imagem faz referência ao ano 2100. A incoerência é que os pinguins, animais que vivem em ambientes frios, estão no Polo Norte que parece ter virado caatinga.
A coerência se estabelece na interlocução entre os usuários do texto, (seu produtor e receptor). Textos sem que continuidade são considerados como incoerente, embora a continuidade relativa a um dado tópico discursivo seja uma condição para o estabelecimento da coerência, nem sempre a continuidade representará incoerência. Os processos cognitivos operantes entre os usuários do texto caracterizam a coerência na medida em que dão aos usuários a possibilidade de criar um mundo textual que pode ou não concordar com a versão estabelecida do “mundo real”.
Que é coesão?

Coesão são as ligações concretas que dão coerência aos elementos de uma mensagem. Todo escrito se organiza em torno de um elemento de referência, que lhe dá coesão. 


Ser coeso em um texto é assumir o compromisso da manutenção de um tema do começo ao fim. A desordem nas ideias prejudica o entendimento do texto. Para ser bem sucedido nessa empreitada, o redator deve ter clara a evolução do texto.




Recursos da coesão

1. Substituição de palavras com o emprego de sinônimos ou de palavras ou
expressões de mesmo campo associativo. 

2. Nominalização – emprego alternativo entre um verbo, o substantivo ou o 
adjetivo correspondente (desgastar / desgaste / desgastante). 

3. Repetição na ligação semântica dos termos, empregada como recurso estilístico de intenção articulatória, e não uma redundância - resultado da pobreza de vocabulário.  Por exemplo, “Grande no pensamento, grande na ação, grande na glória, grande no infortúnio, ele morreu desconhecido e só.” (Rocha Lima)

4. Uso de hipônimos – relação que se estabelece com base na maior especificidade do significado de um deles. Por exemplo, mesa (mais específico)  e móvel (mais genérico).

5. Emprego de hiperônimos - relações de um termo de sentido mais amplo com outros de sentido mais específico. Por exemplo, felino está numa relação de hiperonímia com gato.

6. Substitutos universais, como os verbos vicários (ex.: Necessito viajar, porém só o farei no ano vindouro) A coesão apoiada na gramática dá-se no uso de conectivos, como certos pronomes, certos advérbios e expressões adverbiais, conjunções, elipses, entre outros.


A elipse se justifica quando, ao remeter a um enunciado anterior, a palavra elidida é facilmente identificável.

 (Ex.: O jovem recolheu-se cedo. ... Sabia que ia necessitar de todas as suas forças. O termo o jovem deixa de ser repetido e, assim, estabelece a
relação entre as duas orações.).


Dêiticos são elementos lingüísticos que têm a propriedade de fazer referência ao contexto situacional  ou ao próprio discurso. Exercem, por excelência, essa função de progressão textual, dada sua característica: são elementos que não significam, apenas indicam, remetem aos componentes da situação. comunicativa. Já os componentes concentram em si a significação. 
Elisa Guimarães (2) nos ensina a esse respeito: 

“Os pronomes pessoais e as desinências verbais indicam os participantes do ato do discurso. Os pronomes demonstrativos, certas locuções prepositivas e adverbiais, bem como os advérbios de tempo, referenciam o momento da enunciação, podendo indicar simultaneidade, anterioridade ou posterioridade. 

Assim: este, agora, hoje, neste momento (presente); ultimamente, recentemente, ontem, há alguns dias, antes de (pretérito); de agora em diante, no próximo ano, depois de (futuro).” 






ATIVIDADES
Para sistematizarmos esse conteúdo, no texto, vamos praticar.
I - Leia o texto 1:
João vai à padaria. A padaria é feita de tijolos. Os tijolos são caríssimos. Também os mísseis são caríssimos. Os mísseis são lançados no espaço. Segundo a teoria da Relatividade o espaço é curvo. A geometria Rimaniana dá conta desse fenômeno.

                                         Luís Antônio Marcuschi. A lingüística do texto: o que é
                                                        e como se faz. Recife, UFPE, 1982, p. 31.

Leia o texto 2:

      (...)
      Lá dentro havia uma fumaça espessa que não deixava que víssemos ninguém.
     Meu colega foi à cozinha, deixando-me sozinho. Fiquei encostado na parede da sala, observando as pessoas que lá estavam. Na festa, havia pessoas de todos os tipos: ruivas, brancas, pretas, amarelas, altas, baixas etc. (...)

            Francisco Platão Saviolli e José Luis Fiorin. Lições de texto: leitura e redação.  
            São Paulo, Ática, 1996, p. 397.  

   

   O que torna esses textos confusos, incoerentes?


  O primeiro texto é incoerente porque falta unidade de sentido entre as frases seqüenciadas e o segundo texto é incoerente porque apresenta contradição de informações (inicialmente o personagem diz que não podia ver ninguém, mais adiante, sem dar explicações, diz que viu pessoas de todos os tipos.
 A coerência é a condição indispensável do texto e que  diz respeito à adequada relação de sentido  entre os elementos textuais.

                            


Somente a coesão não é suficiente para que haja sentido no texto, Esse é o papel da coerência, e coerência se relaciona intimamente a contexto. 

Vejamos como o examinador tem abordado o assunto:


II - Assinale a opção em que a estrutura sugerida para preenchimento da lacuna correspondente provoca defeito de coesão e incoerência nos sentidos do texto.

A violência no País há muito ultrapassou todos os limites. ___1___ dados recentes mostram o Brasil como um dos países mais violentos do mundo, levando-se em conta o risco de morte por homicídio.

Em 1980, tínhamos uma média de, aproximadamente, doze homicídios por cem mil habitantes. ___2___, nas duas décadas seguintes, o grau de violência intencional aumentou, chegando a mais do que o dobro do índice verificado em 1980 – 121,6% –, ___3___, ao final dos anos 90 foi superado o patamar de 25 homicídios por cem mil habitantes. ___4___, o PIB por pessoa em idade de trabalho decresceu 26,4%, isto é, em média, a cada queda de 1% do PIB a violência crescia mais do que 5% entre os anos 1980 e 1990.

Estudos do Banco Interamericano de Desenvolvimento mostram que os custos da violência consumiram, apenas no setor saúde, 1,9% do PIB entre 1996 e 1997. ___5___ a vitimização letal se distribui de forma desigual: são, sobretudo, os jovens pobres e negros, do sexo
masculino, entre 15 e 24 anos, que têm pago com a própria vida o preço da escalada da violência no Brasil.

(Adaptado de http:// www.brasil.gov.br/acoes.htm)

a) 1 – Tanto é assim que
b) 2 – Lamentavelmente
c) 3 – ou seja
d) 4 – Simultaneamente
e) 5 – Se bem que

COMENTÁRIO: As lacunas no texto ocultam palavras e expressões que atuam como conectores – ligam orações estabelecendo relações semânticas entre os períodos. A banca sugere algumas opções de preenchimento.

Dessas, a única que não atende ao solicitado é a de número 5, uma vez que a expressão “Se bem que” deveria introduzir uma oração de valor concessivo, estabelecendo, assim, idéia contrária à que foi apresentada até então pelo texto.

Verifica-se, contudo, que o que se segue ratifica as informações anteriores ao fornecer dados complementares às estatísticas sobre homicídios. Sendo aceita a sugestão da banca, a coerência textual seria prejudicada. Por isso, o gabarito é a opção E.




Referências:

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